• CMurville

Questão de território ou de etiqueta?


Os elefantes viviam em paz, no território deles. Mas um carrinho de turistas rompeu a tranquilidade deles. Gazes tóxicos e fedidos saíam do escapamento do veículo e o motor barulhento afugentava passarinhos. Além do mais, a turma no carro falava alto, dava gargalhadas, destoava completamente do ambiente de natureza intocada, no qual se aventurava.

Lógico que os elefantes ficaram incomodados. Um deles, grande e forte, talvez o responsável por cuidar dos demais, logo mostrou seu descontentamento. Apareceu bravo na frente dos turistas, guinchou, bateu orelhas, ergueu a trompa. Deixou claro: era para o carrinho intrometido ir embora.

Mas os turistas acharam graça do elefante irritado. Deram risada, um deles chegou até a caçoar do animal, segundo ele, exibido. A turma aproveitou para tirar fotos do bicho, para mostrar aos amigos e provar o quão perto havia chegado daqueles animais enormes. Mas ninguém de fato enxergava os elefantes ou percebia o que acontecia com eles. Os turistas não estavam preocupados com eles, tampouco se os estavam incomodando. Só queriam se divertir e levar uma recordação do passeio.

Percebendo que os intrusos continuavam ali, o elefantão voltou a ameaçar. Desta vez, foi mais vigoroso, chegou perto do carro, tinha que afugentar de vez a turma mal-educada que só pensava em si e era incapaz de ver outros seres e respeitá-los.

Os turistas estremeceram. A euforia inicial de estar em território de elefantes deu lugar a risadas nervosas e fisionomias tensas. Imagine se o bicho ficasse enfurecido e resolvesse atacar de verdade! O povo suava frio, exalava medo, não conseguia controlar as emoções. Mas os turistas haviam pago caro por aquele safari. Tinham direito de estar ali! Não dariam meia volta ou bola para o animal nervoso e apegado ao território.

Porém, os elefantes não podiam deixar a realidade deles ser contaminada por turistas desrespeitosos. Tinham que proteger as fêmeas e os pequeninos. E quando o elefantão voltou a aparecer, estava absolutamente irado e veio acompanhando de seus irmãos!

O susto foi tanto, que os turistas aterrorizados rapidamente deram marcha a ré com o carro. Mesmo a contragosto, tiveram que abortar o passeio. Não queriam ser pisoteados por elefantes furiosos!

Mas a verdade era que não tinham permissão para ficar em santuário sagrado, não tinham etiqueta para isso. E, depois que se foram, ainda sobrou no chão uma bituca de cigarro e um papelzinho de bala, que talvez sem perceber, por falta de cuidado, ou displicência mesmo, algum dos visitantes mal-educados havia deixado para trás!

Quem tem a devida etiqueta para entrar e sair dos lugares, mantendo-os sempre preservados e limpinhos, sem deixar lixo para trás? Como conviver com seres puros e inocentes, sendo desrespeitoso, inconveniente ou barulhento? É necessário ser chique para visitar elefantes. Nada de pensamentos egocentrados fedidos, olhares intrometidos ou emoções instáveis descontroladas! Elefantes não querem saber de lixo na casa deles!

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