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UM DRAGÃO PARA O NATAL

Atualizado: 12 de Ago de 2019


Clara adorava seus bichos de pelúcia, conversava diariamente com todos eles. Em seus aniversários, sempre ganhava mais um amigo para cuidar e aumentar a sua coleção. Porém, para o Natal, havia pedido ao Papai-Noel um dragão de presente. Queria um dragão de verdade, que voasse e cuspisse fogo, como aqueles dos filmes e desenhos animados. Tinha cachorro em casa, por que não agora ter também um dragão? Isso lhe parecia absolutamente natural e Clara já se imaginava montada nele, sobrevoando campos e cidades, viajando o mundo inteiro.

Mas sua tia logo explicou que dragões não existiam. Clara olhou espantada para a tia, pois em seu mundo havia, sim, dragões e eram maravilhosos. Porém a tia continuou dizendo que não conhecia ninguém que já houvesse encontrado um dragão. Precisava trazer a menina para a sua realidade, que julgava mais correta e sensata. Chega de ficar sonhando com o que não existe. A sobrinha já estava ficando grandinha, era importante manter os pés no chão e aprender a diferenciar o que era real do imaginário. O discurso da tia abalou profundamente Clara, que sentiu seu mundo mágico e colorido, com dragões, bichos de pelúcia falantes e Papai-Noel, ameaçado. Uma tristeza enorme tomou conta da menina, que relutava em entrar na onda da tia e limitar a sua percepção à realidade que esta última lhe impingia. Clara desabou a chorar e ninguém conseguia consolá-la.

Coube ao pai acudi-la. Onde já se viu cortar os sonhos da pequena assim, sem qualquer cerimônia? Além do mais, tudo poderia ser considerado como vibração e havia uma parcela enorme da realidade que escapava à percepção humana. Talvez existissem diferentes mundos imbricados acontecendo em faixas vibracionais distintas. Logo, bem que poderia haver um dragão voando por aí, em alguma realidade paralela imperceptível aos olhos condicionados a ver apenas uma fatia específica da realidade, momentaneamente sintonizada e eleita como real e única. Também, o que de fato era sonho ou realidade? Reparava na qualidade efêmera e mutante de toda realidade vivida, sensível a cada intenção, pensamento ou sentimento emitido. Desconfiava que muita gente vivia enclausurada em sua bolha de sonhos particular, sem conseguir enxergar muito além do que projetava à sua volta.

A menina parou de chorar. Porém nunca mais falou em dragões. Até parecia que tinha desistido de seu presente de Natal e deixado de lado seu mundo maravilhoso com seres voadores fantásticos. O pai percebia a tristeza no coração da filha, que agora vivia enfiada em um mundo cinza e sem brilho, apesar do universo de possibilidades de manifestação em infinitos planos vibracionais coexistentes.

No dia do Natal, toda a família viu pairando sobre a casa uma nuvem imensa em forma de dragão. Clara sorriu. Seu amigo tinha vindo visitá-la. Papai-Noel havia se lembrado dela e seu pai tinha razão!


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