• CMurville

ANJO DA GUARDA


Gostaria tanto de conversar com ela! Mas, há muitos anos, ela não me ouve mais, tampouco me vê ou sente. E olha que, quando ela era menina, tínhamos uma relação muito próxima. Ela adorava a minha companhia e me via em todos os lugares; nas árvores, nos pássaros, nas flores, na cadeira, no abajur, no silêncio de seu quarto, em seus sonhos, nas estrelas...


Mas, agora, nem se lembra mais de nada disso. Vive atarantada, correndo contra o tempo, mergulhada na internet, no celular, nas mídias sociais... Difícil parar um segundo para apreciar a vida, a natureza, admirar o pôr do sol, sentir a sua respiração, quem diria então ouvir o próprio coração.


Além do mais, milhões de pensamentos abarrotam a sua mente; que roupa usar no final de semana, as unhas e o cabelo por fazer, desentendimentos com uns e outros, disputas, frustrações, desejos e mais desejos. E com a mente assim agitada, volta e meia, mais alguma recordação desagradável insiste em importunar. Ressentimentos, coisas mal resolvidas, o que falou, ou não, se falou demais e assim por diante, quanta coisa na cabeça!


Logo, é absolutamente compreensível que ela não consiga se lembrar de mim, imagine então me ouvir, ver ou sentir. Vivo aparecendo em seus sonhos e sussurrando em seus ouvidos para que tenha algum insight. Porém, dos sonhos, ela não se recorda mais ao despertar pela manhã. Quanto à intuição, anda muito fraca.


Confesso que não sei mais o que fazer, sendo que preciso urgentemente me comunicar com ela. Sei que está prestes a fazer uma grande bobagem. Afinal, com tantos grilos rodopiando à sua volta, como ter uma visão clara do que realmente lhe acontece? Como fazer boas escolhas?


O que você sugere? O que faria no meu lugar?


Quem sabe, apareço vestido de demônio em seu pesadelo desta noite. O que acha? Posso ainda tentar jogar o abajur em cima dela ou fazer a lâmpada piscar loucamente. Nada como um susto bem grande para levá-la a refletir um pouco mais. Ou, então, lanço para cima dela um resfriado bem forte, daqueles de derrubar mesmo, obrigando-a a ficar em casa e se recolher. No delírio da febre alta, ela talvez me ouça finalmente.


Eu não desisto. Pois a amo incondicionalmente.

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