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Brilho na correnteza

Foto do escritor: CMurville
CMurville
18 de jan. de 2020
2 min de leitura


Um feixe de luz incidiu sobre o riacho. Infinitas partículas luminosas mergulharam na água e começaram suas aventuras no mundo.

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Uma fagulha de luz sentiu-se fortemente atraída pelas plantinhas que cresciam nas bordas úmidas do riacho. Aproximou-se delas e se fundiu a elas. Outra seguiu um peixe que nadava graciosamente, até alcança-lo. Queria aprender a nadar, ser um peixe também. Outra ainda ficou fascinada com as pedras que desenhavam o curso das águas. Virou pedra, enquanto sua irmã foi atrás de uma tartaruga que topou pelo caminho.

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A primeira a atingir os cascalhos nas margens juntou-se a eles, transformando-se em um deles. Mas muitas mergulharam fundo e se metamorfosearam em grãos de areia no leito do riacho. Passou ainda um galho de árvore flutuando e incontáveis faíscas luminosas se agarraram a ele, finalmente se transformando no próprio galho.

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Quantas experiências possíveis de se viver no riacho! Cada centelha divina podia escolher onde morar e por quais experiências passar neste mundo de contrastes e movimento, ora apresentando águas claras, ora escuras, revoltas ou tranquilas.

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Enquanto ia sendo levada pela correnteza, uma porção de luz reconheceu suas irmãs na vegetação, nas pedras, nos insetos, nos animais... Notou que muitas delas já acreditavam ser o galho, o tronco, o cascalho, a larva, o peixe... Viviam em grupo com suas colegas vizinhas semelhantes a elas e não se recordavam mais do universo de possibilidades no qual estavam mergulhadas. Tinham dificuldade em lidar com diferenças e estavam apegadas a tudo que haviam juntado à volta delas. Uma ou outra chegava até a se achar mais especial do que as outras e olhava de cima suas irmãs. Havia peixe grande menosprezando os pequenos, girino falando mal do galho, lesma brigando com o cascalho, grão de areia irritado com a tartaruga! Ninguém se lembrava mais de que todos eram somente luz.

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Porém, apesar dos desentendimentos aqui e acolá, o riacho amorosamente acolhia todo mundo de forma igual, conforme as necessidades e vontades de cada um, sem julgar nada ou qualquer ser. Afinal, cada centelha divina era sagrada, assim como toda situação que ela resolvesse experimentar ou as moradas que desejasse visitar.

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A faísca luminosa que via a luz em tudo sabia que não estava só. Sentia-se parte de uma imensa vida que acontecia à sua volta, no riacho e em todo o universo.

Decidiu, então, ser como a correnteza que não se prende a nada. Passearia por todos os ambientes, densos e sombrios ou leves e luminosos, mas continuaria sendo ela mesma - simplesmente um brilho na correnteza!


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