• CMurville

EFEITO DOMINÓ


Quantas vezes brinquei de derrubar longas fileiras de peças de dominós, dispostas uma ao lado da outra! Notei que, ocasionalmente, acontecia de uma peça não cair, ficar de pé, interrompendo o movimento em cadeia deflagrado ao fazer tombar o primeiro dominó da fila sobre seu vizinho. E de tanto observar dominós caindo em sequência, uns sobre os outros, comecei a me perguntar se, de certa forma, não somos semelhantes aos dominós!

Fui recentemente à um evento social onde avistei Mari. Ela estava de muito mau humor e, assim que encontrou Vivi, foi logo reclamando da vida que não acontecia conforme gostaria e ainda comentou de uns e outros que não agiam segundo suas expectativas. Vivi saiu da frente de Mari com as histórias da colega rodopiando à sua volta e, quando topou com Joaquim, não aguentou e desabafou. Falou do comportamento desagradável da Mari, que ficava se queixando de tudo e todos, mas aproveitou igualmente para compartilhar algumas de suas desgraças. Foi, então, a vez de Joaquim sair andando com as considerações inconvenientes de Vivi abarrotando seus pensamentos. Não houve como ele não dizer ao Luiz o que as meninas andavam falando. Luiz ficou irritado, quanta papagaiada! Mas ele também comentou com Gisele suas impressões particulares sobre fulano e beltrano. E quando Gisele cruzou com Bia, jogou no colo da amiga a energia dos falatórios que acabara de receber de Luiz. Lógico que a onda de fofoca, descontentamento e reclamações não parou por aí. Em pouco tempo, mais gente no salão começou a falar da vida alheia e reclamar de tudo, fazendo cara de chateada e às vezes até de vítima. Aquela energia de mal-estar, lançada incialmente por Mari, foi passando de um para o outro, que então replicava o mesmo comportamento, reclamando e falando mal de alguém. Todos foram caindo, um atrás do outro!

Porém, quando a energia de fofoca e insatisfação bateu em João, ele não caiu, ficou de pé. Ouviu as papagaiadas que rolavam no salão, as reclamações, reparou na cara sisuda de seu interlocutor. Mas se manteve íntegro, não entrou na vibração do sujeito à sua frente, carregado de julgamentos, críticas e visões tendenciosas sobre a vida e os outros. Absorveu toda a energia desagradável que seu vizinho lhe transmitia e não a passou adiante. Não saiu falando de ninguém ou reclamando de qualquer coisa. Tampouco alterou seu semblante. Interrompeu o movimento em cadeia, parou a energia que fez seus colegas caírem.

Existem dominós que caem quando qualquer vento fedido os atingem e outros que são incorruptíveis e mantém a dignidade. Mas que tipo de dominó escolhemos ser? E será que haveria algum jeito de empurrar de volta o dominó caído para que volte a ficar de pé e recupere a sua honra?


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